Língua lotada de informações, animal idolatrado e até dançarino: conheça curiosidades sobre as serpentes
Publicado em: 01/12/2021

Uma serpente é capaz de saber tudo sobre sua presa apenas capturando partículas do ar com a língua. Algumas espécies dançam para disputar a fêmea na época do acasalamento. E há certas sociedades humanas que idolatram esses animais como sagrados. As serpentes estão entre nós há milhões de anos, são cheias de mistérios... e curiosidades.

Répteis de sangue frio, elas são conhecidas popularmente como cobras. “Cientificamente, a gente usa cobra só pras najas, para aquelas serpentes que abrem o capelo [pequena capa que as najas têm logo abaixo da cabeça] e se erguem”, esclarece o pesquisador científico do Butantan, Sávio Stefanini Sant’Anna.

 

Simbolismo e importância para diversos povos

Há quem diga que as serpentes estão por aí desde o início dos tempos. Basta lembrar quem levou Eva à tentação no Jardim do Éden. No cristianismo, esse animal é associado com o mal. No antigo Egito, foi considerado o responsável pela morte da rainha Cleópatra.

Em algumas culturas, no entanto, as cobras são vistas como símbolo de fertilidade. Os índios hopi, dos Estados Unidos, dançavam com serpentes vivas para celebrar a união de deuses. Na Índia, elas são sagradas, têm até templos em sua homenagem. Na mitologia grega, Medusa tinha cabelos de serpente e Hércules as enfrentou em um de seus trabalhos.

No Brasil, não é tão diferente assim. “O Butantan já doou mudas de pele de cobra para algumas tribos indígenas. Eles usam para rituais de passagem, aqueles quando o menino vira adulto. Enfeitam flechas e arcos com essas mudas”, explicou o pesquisador científico.

 

Quanto mais experiente, mais peçonhenta

Em algumas espécies, principalmente no grupo das jararacas, o veneno se altera conforme a idade. E o filhote é bem diferente da serpente adulta neste quesito. “É o que a gente chama de variação ontogenética. Conforme a serpente desenvolve, ocorre a mudança no veneno. A partir do momento que ela fica adulta, o veneno fica mais constante”, conta o pesquisador.

 

Cobras sabem conviver com outras quando necessário

Durante a época de reprodução, os machos costumam brigar pelas fêmeas. A luta acontece como se fosse uma dança. Elas erguem o corpo e ficam frente a frente, balançando em direção à outra. O objetivo é abaixar o corpo da adversária. Quem vencer, fica com a fêmea. Como em todo combate, alguma serpente pode acabar picada ou machucada, mas elas geralmente são imunes ao veneno da própria espécie. Sávio revela que as serpentes dificilmente se atacam. “A gente solta as cobras no nosso serpentário de exposição e percebe que, no dia seguinte, tem quatro, cinco juntas, uma em cima da outra, dividindo o mesmo ambiente. Elas se unem quando necessário.”

 

Ouvidos superpotentes

O que nós entendemos como ouvido são apenas ossos modificados para sentir as vibrações. Pelo solo, a cobra consegue sentir os passos da presa. O ouvido é modificado pra ter essas sensações ampliadas, e a serpente consegue sentir a presença de potenciais predadores ou presas. 

 

Língua que faz de tudo

“A cobra sente tudo pela língua. Ela bota a língua pra fora e balança. Como a língua é úmida, ela captura partículas químicas do ambiente e, quando volta para dentro, passa no céu da boca e deixa as partículas ali. O cérebro vai processar como é o cenário todo na frente dela”, explica Sávio. Este aparelho olfativo auxiliar se chama órgão vomeronasal ou órgão de Jacobson.

A língua bifurcada das serpentes tem outra importante função e serve como um indicador de direção. Se um predador estiver à espreita do lado direito, ao fazer o processo de balançar a língua para fora e passar no céu da boca, a serpente vai saber em qual lado ele está, pois a parte direita da língua vai transmitir essa informação e a parte esquerda não vai indicar nada.

 

Troca de pele

Serpentes não fecham os olhos e não piscam. Elas não têm pálpebra, apenas uma escama que fica localizada na região do olho e protege contra o ressecamento. Quando a serpente troca de pele, essa escama sai e outra aparece para proteger. “Troca de pele ocorre por causa do crescimento. A gente também troca de pele, mas em pedaços pequenos. Uma serpente saudável troca a pele toda de uma vez só. Os répteis nunca param de crescer, eles até podem diminuir a taxa de crescimento, mas seguem crescendo”, definiu Sávio.

No caso da cascavel, a mudança de pele forma o guizo, aqueles anéis que chacoalham na cauda dela. Quando essa serpente troca de pele, ela usa o resto da pele para formar um anel, e de vez em quando até substitui outro anel mais antigo. Saber a idade da cascavel pelo número de anéis é um mito, afinal, as serpentes trocam de pele ao crescer, e isso acontece por conta da alimentação e ambiente. Elas não crescem por conta da idade. Uma importante função do guizo é fazer barulho para avisar o predador que a cascavel já sabe da presença dele e está preparada para a briga.

 

Visão de calor

Algumas serpentes até enxergam, mesmo que muito mal. Elas conseguem ver a sombra de outro animal e, por meio dessa informação, saber o tamanho dele. Algumas espécies, como a cascavel e a jararaca, têm a chamada fosseta loreal. “É um orifício entre o olho e a narina, um órgão receptor que detecta a temperatura. A cobra consegue até saber onde é a parte da frente e onde é a parte de trás do animal só pelo calor dele”, conta Savio.