Varíola dos macacos pode se tornar um problema de saúde pública se não houver bloqueio de transmissão, diz cientista do Butantan

Medidas para conter o avanço do vírus devem ser rápidas já que outras formas de contenção demandam mais tempo


Publicado em: 24/05/2022

A disseminação da varíola dos macacos em diferentes países pode se tornar um problema de saúde pública mundial por uma série de fatores, que envolvem maior gravidade da doença em certos públicos, pela necessidade de isolamento dos doentes e por não haver vacinas para imunização em grande escala. Por isso, a medida de saúde mais eficaz para conter o avanço do vírus, neste momento, é bloquear a transmissão inter-humanos, afirma a diretora do Laboratório de Virologia do Butantan, Viviane Botosso. Saiba mais sobre a doença e seus sintomas.

“Apesar de ser uma doença autolimitante, que tende a se curar sozinha, e muito menos grave do que a varíola, pacientes imunocomprometidos e crianças podem desenvolver doenças mais graves e isso pode acarretar problemas de saúde pública”, diz ela.

O Monkeypox, conhecido como vírus da varíola dos macacos, circula de maneira endêmica em alguns países da África, sendo descritos, ocasionalmente, surtos em países fora do continente. Entretanto, foi verificado no decorrer do último mês um número crescente de casos em ao menos 12 diferentes países não africanos.   

 A virologista pondera que ainda é cedo para afirmar que a varíola dos macacos se tornará um problema mundial. A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou comunicados em tom de alerta até o momento, diferente da época da disseminação da Covid-19, cuja transmissão era mais eficaz, o que levou rapidamente a situação de pandemia. 

A transmissão do vírus da varíola dos macacos se dá, principalmente, por contato próximo com fluidos corpóreos e lesões da pele da pessoa doente. Portanto, medidas que visem identificar os doentes e pessoas próximas a eles e isolá-los devem ser prioritárias para frear o avanço e evitar que a doença se torne um problema, segundo ela. 

“Agora vai depender de como serão tomadas as medidas de saúde pública dos países que estão sendo acometidos para tentar conter isso sem grandes consequências. Mas não temos bola de cristal, e o que existe é uma frente de alerta para tentar prevenir seu avanço”, ressalta.

Segundo a virologista, Monkeypox conhecida como varíola dos macacos, é uma espécie de “prima” da varíola. Ambos pertencentes ao gênero Orthopoxvirus da família Poxviridae. Porém, diferentemente da varíola dos macacos, a varíola humana foi uma das doenças mais mortais da história da humanidade e foi oficialmente declarada como erradicada do planeta em 1980, após uma ampla campanha mundial de vacinação em massa.

Vacinação pode ser a solução?

Quem se vacinou antes da erradicação do vírus da varíola, pode ter imunidade cruzada para a varíola dos macacos. Mas a proteção não é uma certeza, pois a vacinação massiva ocorreu há mais de 40 anos, destaca Viviane.

“As pessoas vacinadas contra varíola têm anticorpos que protegem contra o Monkeypox, o que não sabemos é se isso dura até hoje porque são mais de 40 anos.”, afirma.

Após a extinção da circulação do vírus da varíola, a vacina deixou de ser fabricada em larga escala no mundo e atualmente há um imunizante que é fabricado e recomendado em determinadas situações, como por exemplo, para quem precisa manipular o vírus em laboratório, portanto, não está disponível em larga escala. O Imvanex é o imunizante fabricado pela companhia dinamarquesa Bavarian Nordic, e é aplicado em duas doses.

Diante disso, a principal medida a ser feita neste momento é criar redes de monitoramento de casos nos países já atingidos e nos demais. No Brasil, o Ministério da Saúde investiga casos suspeitos, mas não há nenhum confirmado até o momento – apesar de o paciente confirmado na Alemanha ser um brasileiro que está isolado no país. Segundo a virologista, um grupo de especialistas já foi criado pelo Ministério da Ciência e da Tecnologia (MCTI), e o Ministério da Saúde anunciou esta semana a criação de um grupo de monitoramento de casos no país.

“O mais importante quando você tem um vírus novo é atacar em várias frentes, sendo a principal trabalhar na detecção do vírus e no isolamento das pessoas doentes. Trabalhar na prevenção, com vacinas, é importante, mas se houver uma disseminação rápida, não haverá tempo de ter a vacina para todo mundo. O melhor é bloquear a transmissão e isso nós aprendemos com o próprio SARS-CoV-2”, conclui Viviane.