Tese feita no Butantan ganha prêmio Destaque USP por estudo inédito com tripanossoma


Publicado em: 22/10/2021

Uma pesquisa feita nos laboratórios do Instituto Butantan foi reconhecida na 10º edição do Prêmio Tese Destaque USP como uma das melhores teses de doutorado defendidas na Universidade de São Paulo no biênio 2019/2020 na categoria Ciências Biológicas. Com o título "Análise funcional do complexo Replication Protein A em tripanossomatídeos e seu envolvimento com DNA telomérico”, o trabalho é de autoria do biólogo Raphael Souza Pavani, foi realizado no Programa de Pós-Graduação em Biologia da Relação Patógeno Hospedeiro do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e orientado pela pesquisadora científica e diretora do Laboratório de Ciclo Celular do Butantan, Maria Carolina Sabbaga.

“Ele desenvolveu a tese aqui no Butantan, comigo no meu laboratório. Ele fazia as experiências e trazia para mim. Então nós discutíamos sobre os próximos passos, se vai por aqui ou por ali. A gente vai conduzindo, mas é o aluno quem traz as ideias”, explica Maria Carolina. Com o doutorado finalizado, a continuação do trabalho de Rafael será feita, a partir de agora, pela equipe do laboratório. “Nós encontramos um pedaço do quebra-cabeça, mas queremos construí-lo inteiro”, comenta ela.

O estudo inédito descreve as proteínas que têm um importante papel na preservação do genoma em tripanossoma. Todo organismo (leveduras, bactérias, humanos) tem um sistema de várias proteínas com a função de manter o genoma, que é a nossa informação genética. O genoma não pode sofrer danos ou grandes mutações, senão também mudará a informação genética que é passada aos descendentes. O tripanossoma é um protozoário que tem muita variabilidade genética, e mostra isso ao ficar resistente a tratamentos e nos diferentes sintomas que provoca no hospedeiro infectado. A descoberta de Raphael foi que uma das proteínas que trabalha nessa preservação do tripanossoma sai do núcleo e vai para o citoplasma.

“Ele me ligou em uma sexta à noite e disse ‘você não sabe o que eu estou vendo aqui no microscópio: ela está fora do núcleo’. Eu não consegui acreditar na hora, pedi até uma foto. Isso foi totalmente surpreendente”, relembra a pesquisadora científica. O próximo passo do estudo é descobrir por que a proteína sai do núcleo e o que ela vai fazer no citoplasma, além de encontrar quais são as outras proteínas que interagem com ela. 

Maria Carolina afirma que o fato de Raphael – seu sexto orientando – ganhar um prêmio como o Tese Destaque USP fez com que os outros alunos fiquem ainda mais animados com os experimentos e a perspectiva de verem seu trabalho ser reconhecido. Mas o caminho do agora doutor não foi fácil: Raphael teve a bolsa recusada no dia do próprio aniversário. Por isso, a professora salienta que é preciso sempre perseverar quando se quer alguma coisa.

“Mesmo desanimados, a gente falou que não aceitaria aquilo, que brigaríamos pelo que acreditávamos. Mostraríamos que a bolsa era importante. Foi preciso muito trabalho e perseverança, e no final, isso virou um prêmio. Nada vem de graça. É preciso lutar muito”, comemora a pesquisadora. “O Rafael foi atrás, estudou e fez um trabalho maravilhoso. Ele é extremamente dedicado. Se alguém merecia ganhar esse prêmio, era ele. Ele lia muito, estudava muito, trabalhava muito e se dava bem com todo mundo”, diz ela.

 

Papel importante na pandemia

Em uma época de pandemia, na qual os cientistas lutam tanto para combater o SARS-CoV-2, a dedicação à ciência é fundamental não só para mostrar a pesquisa de qualidade feita no Brasil, mas para salvar vidas. A própria Maria Carolina tem um papel fundamental nas iniciativas do Butantan de combate à Covid-19. Ela também é vice-diretora do Centro de Desenvolvimento Científico do instituto e uma das coordenadoras da Rede de Laboratórios para Diagnóstico do Coronavírus SARS-CoV-2 e da Rede de Alerta das Variantes do SARS-CoV-2. 

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Ela recorda quando, ainda no início de 2020, participou de uma reunião com o presidente do Butantan, Dimas Covas. Na ocasião, ele falou de seu plano para que o Butantan ajudasse o Instituto Adolfo Lutz, laboratório central de saúde pública do estado de São Paulo, que processava as amostras de exame RT-PCR no estado – a instituição não estava conseguindo vencer a demanda. Maria Carolina não pensou duas vezes e topou fazer parte da iniciativa. A Rede de Alerta das Variantes do SARS-CoV-2 foi uma consequência da rede para o diagnóstico de Covid-19. “A gente passou a receber quatro mil amostras por dia. Então pensamos: ‘e se a gente sequenciar isso? Vamos achar as variantes da Covid-19 e entender o comportamento do vírus’”, relembra.

Já são catorze anos de trabalho dedicados ao Butantan. Dentre tantas histórias, Maria Carolina rememora o quanto foi difícil o começo da pandemia, quando ainda não existia vacina ou tratamento e era preciso ter muito cuidado. Os pesquisadores do Butantan foram aos poucos aprendendo mais sobre a doença, ao lado de cientistas de todas as partes do mundo. “Foi uma loucura, muito estudo. Mas o presidente Dimas deu todo o apoio para a Rede de Alerta. A gente precisava fazer isso. É uma pandemia. Não dava para fugir.”

Ela redobrou a atenção em todas as frentes e encarou mais este desafio. E ainda arrumou tempo para não deixar de cuidar das duas filhas em meio a todo o turbilhão. Maria Carolina explica qual o segredo para conseguir se dividir em tantas. “É ter uma boa equipe, gente que trabalha bem, gente em quem você tem segurança. Os meus alunos tocam as coisas super bem, o pessoal da Rede de Diagnósticos e da Rede Alerta e nossos colaboradores são super ponta firme, então fica mais fácil. E a confiança em todos eles é o mais importante sempre.”