Seis razões para voltar a usar máscara que podem ajudar a conter nova onda de Covid-19 no país

Aumento de casos e de internações por Covid-19, baixa cobertura vacinal e aglomerações indicam necessidade


Publicado em: 08/06/2022

O uso de máscaras contra a Covid-19 voltou a ser recomendado em locais fechados diante do aumento de casos e internações pela doença no país. A orientação não é à toa: a ciência já comprovou que o uso de máscara cobrindo nariz e boca, sobretudo a cirúrgica e do tipo N95, realmente é eficaz para evitar o acesso de vírus respiratórios, como o SARS-CoV-2, e consequentemente a sua disseminação. 

Segundo o diretor do Laboratório Multipropósito do Instituto Butantan, Renato Astray, o uso da máscara neste momento se torna uma medida de contenção ainda mais importante porque o país vive uma concentração de situações propícias para a disseminação do coronavírus e de suas variantes, que pode causar a temida quarta onda de Covid-19.

“As pessoas pensam muito na saúde dos familiares mais próximos, mas precisam entender que a vacina e o uso de máscaras são medidas de saúde coletiva. Quando nos protegemos destas formas, contribuímos para diminuir a circulação do vírus e para proteger quem não pode tomar a vacina, quem tem comorbidades e doenças crônicas e está mais suscetível a infecções graves”, afirma o doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo e pela Universidade de Strasbourg, na França.

Uma pesquisa divulgada na semana passada pela revista PNAS, da Academia de Ciência dos Estados Unidos, com base em quatro meta-análises de estudos anteriores, mostra que o uso de máscaras é eficaz para conter o avanço da Covid-19 em ambientes comunitários. A pesquisa estima reduções médias no risco de infecção de até 61% em resultados individuais. 

“Descobrimos que o uso de máscara está associado a uma notável redução na transmissão. Em situações em que é improvável que a obrigatoriedade tenha um grande efeito na aceitação – por exemplo, porque o uso voluntário já é alto – [...] os formuladores de políticas podem responder com educação sobre o ajuste e a qualidade corretos da máscara”, descreve o artigo.

A pesquisa reforça que para garantir o alto índice de proteção, deve-se evitar máscaras de pano e dar preferência ao uso de máscaras cirúrgicas ou do tipo PFF2, N95 ou KN95.

Com base na eficácia comprovada das máscaras, Renato lista seis motivos para que elas ainda estejam nos planos nacionais e nas precauções individuais para a prevenção da Covid-19. 

1- Aumento de casos e internações

A cidade de São Paulo voltou a recomendar na semana passada o uso de máscaras em locais fechados, seguida de Curitiba (PR) e Belo Horizonte (MG), após o aumento nas taxas de positividade por Covid-19 e de internações. O estado de São Paulo havia liberado o uso de máscaras em locais fechados em 17/3, enquanto a capital mineira retirou a obrigatoriedade em 27/3 e a capital paranaense em 28/3, após queda de casos e internações entre fevereiro e março.

Mas em maio os casos de Covid-19 e as hospitalizações voltaram a subir no país. Dados do boletim InfoGripe Fiocruz, divulgado na semana passada, mostraram que o SARS-CoV-2 já responde por 59,6% dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) que levam à internação. O documento registrou também que a Covid-19 já representa 48% dos casos positivos para vírus respiratórios em circulação no país, ambos com tendência de aumento. 

Diante deste quadro, Renato Astray acredita que a liberação do uso de máscaras no país foi precoce, já que a pandemia não acabou e ainda convivemos diariamente com o surgimento de variantes do coronavírus e de novas infecções, apesar de a vacinação ter impacto importante na diminuição de casos graves e mortes.

“Há um consenso entre as autoridades de saúde do mundo que essa retirada do uso de máscaras foi muito precoce, principalmente nos locais fechados. Nas regiões que estão em temporada de inverno é ainda mais complicado a retirada porque as pessoas tendem a ficar mais reunidas em locais fechados e a chance de transmissão aumenta muito”, afirma.

2- Doença ainda é grave para alguns grupos

Segundo Renato, as novas internações e os casos de SRAG mostram que a doença ainda consegue ser grave em determinados públicos, por isso a máscara deve continuar sendo usada como uma medida de prevenção.

“A gravidade da doença nunca deixou de existir. Há pessoas que ainda adoecem porque não conseguem responder adequadamente ao vírus, como imunossuprimidos, pessoas com doenças crônicas e crianças não vacinadas”, explica o diretor do Laboratório Multipropósito do Butantan.

Por isso, a recomendação do uso de máscaras é ainda mais importante para quem já apresenta alguma doença ou sintoma gripal. “As pessoas doentes têm sempre que usar a máscara para tentar evitar espalhar o vírus”, reitera.

3- Crianças nas escolas e sem vacina

Após o retorno das atividades presenciais nas escolas e a liberação do uso de máscaras nestes locais, as crianças voltaram a ficar mais expostas à Covid-19, sobretudo as não elegíveis para a vacinação: as menores de 5 anos de idade. Sem a proteção e sem máscara, mas em contato com aglomerações em locais fechados, elas se tornaram alvo fácil do coronavírus, explica Renato.

“As escolas têm sido um dos locais de maior transmissão da Covid-19 e essas crianças acabam levando o vírus para casa. Se elas têm contato com os avós ou com pessoas mais suscetíveis, é uma bola de neve. É bem válido adotar as máscaras nestes ambientes”, diz.

No Brasil, a vacinação contra Covid-19 é indicada para pessoas a partir dos 5 anos e adultos de todas as idades. Crianças abaixo desta faixa etária não estão elegíveis para a imunização. O Instituto Butantan entrou com um novo pedido na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para autorização do uso da CoronaVac para crianças de 3 a 5 anos, que está sob análise. O imunizante do Butantan e da farmacêutica chinesa Sinovac já é usado em crianças acima de 6 anos, adolescentes e adultos no país.

4- Tempo frio e aglomerações em locais fechados

O fato de mais vírus respiratórios estarem circulando no momento, seja pelo tempo frio, seja pelo fato de as pessoas estarem se aglomerando, também reforça a necessidade do uso de máscaras para conter a transmissão da Covid-19 e dos demais vírus, que também podem causar complicações e colapsar os serviços de saúde. 

“Sem dúvida o uso de máscaras nesta época diminuiria bastante a incidência de doenças respiratórias. Mas implementar isso como um hábito anual é difícil, porque teria que haver um convencimento grande e as máscaras não são gratuitas. Já reforçar a informação sobre a importância do uso das máscaras nos transportes públicos e de lavar as mãos com frequência, poderia ajudar bastante a conter a disseminação dos vírus respiratórios”, reforça Renato.

Ele dá como exemplo o corriqueiro uso de máscaras em países asiáticos antes mesmo da pandemia de Covid-19 como um fator cultural indicado quando a pessoa apresenta sintomas ou descobre que está com alguma doença respiratória.

“A máscara nestes países é usada como prevenção, quando se tem que usar transporte público, quando a pessoa sai diagnosticada da consulta. Essa seria uma política de educação para a saúde que talvez fosse a mais acessível para o Brasil”, afirma.

5- Baixa cobertura de reforço vacinal

Um dos fatores que mais preocupa e que expõe pessoas à Covid-19 é não estar com a vacinação contra o vírus em dia. Segundo dados do Ministério da Saúde, a cobertura da terceira dose da vacina contra Covid-19 não chegou a 50% da população adulta no Brasil até meados de maio. E é ainda menor entre os jovens adultos, de 18 a 24 anos, que chegou a meros 30%. A falta do reforço, capaz de multiplicar a quantidade de anticorpos contra a Covid-19, deixa um contingente de pessoas mais expostas ao SARS-CoV-2 e mais propensas a espalhar o vírus, afirma Renato.

“Com as variantes da ômicron surgindo, seria ainda mais importante garantir o esquema vacinal completo, para proteger a si mesmo e aos outros. Mas quem por algum motivo não completou, a máscara pode ser mais um fator protetor neste processo”, diz.

6- Liberação de eventos e festejos

A reabertura de eventos e de festejos tradicionais como festas juninas, shows de música, entre outras celebrações, permitem aglomerações de pessoas em ambientes fechados, abertos e semiabertos, e são um convite à disseminação da Covid-19 e de outros vírus. Por isso, para Renato, o uso de máscara deveria ser levado em conta também nestes ambientes.

“O momento é de exigir a precaução também em locais abertos, já que haverá festas de meio de ano e eventos culturais variados. Quanto menos as pessoas se expuserem, melhor, porque coincide com o fato de que muita gente tomou a terceira dose já faz tempo ou nem tomou. É um momento que precisa ter bastante atenção”, conclui.