Por que a deltacron não “pegou” no Brasil e o que isso diz sobre as variantes recombinantes

Linhagem derivada da delta e da ômicron circula desde 2021 na Europa, mas não teve casos detectados no país


Publicado em: 07/04/2022

As variantes recombinantes do SARS-CoV-2, como a deltacron, dependem de fatores biológicos e ambientais para se proliferarem. A ausência de alguma destas condições é determinante para impedir sua propagação e pode explicar por que ela ainda não foi detectada no Brasil, quatro meses depois de ter sido descoberta na Europa.

A deltacron tem uma estrutura recombinante derivada das sublinhagens AY.4 (delta) e BA.1 (ômicron), combinando o material genético das duas cepas. Isso quer dizer que para haver a ocorrência desta variante, uma pessoa precisa ser infectada pelas variantes delta e ômicron ao mesmo tempo e que nesta mesma pessoa deva ocorrer o evento de recombinação.

Isto é, as duas variantes devem estar circulando com força para aumentar a probabilidade de isso acontecer. E não é o que estava ocorrendo no Brasil desde o fim do ano passado, quando a ômicron cresceu e tomou o lugar da outra variante, explica a bioinformata Gabriela Ribeiro, da Rede de Alerta das Variantes do SARS-CoV-2, gerida pelo Instituto Butantan.

“Para que ocorra a deltacron é preciso ter um momento propício, ou seja, uma alta circulação de delta e uma alta circulação de ômicron na população. Em dezembro, o pico da delta começou a cair e houve um aumento grande da incidência da ômicron. Não e só o fator genético do vírus que contribui para o surgimento de variante recombinantes, mas também o ambiente em que ela está circulando.”

Há outras duas hipóteses que podem explicar a ausência de casos de deltacron no Brasil, segundo o também bioinformata do Instituto Butantan Alex Ranieri.

“Pode realmente não ter ocorrido nenhum caso de coinfecção no país, pois já houve chance de isso acontecer quando a delta estava circulando, ou, então, ocorreram casos, só que não foram detectados por ser um número muito baixo”, explica ele.

Para Alex, no entanto, isso não significa que o Brasil esteja livre da deltacron, já que a variante pode chegar ao país por algum viajante e se espalhar por aqui.

“A princípio, a deltacron teria mais chance de ocorrer no Brasil por um caso importado, de alguém trazê-la de lá para cá, e assim o vírus poderia se espalhar por aqui. Mas se isso não ocorreu até agora, parece uma probabilidade cada vez menor.”

A deltacron, cuja denominação oficial é XD, foi detectada pela primeira vez na França e estaria em circulação também na Dinamarca e na Holanda desde dezembro de 2021. Segundo os cientistas do Instituto Pasteur, que descobriram essa linhagem, a deltacron tem o gene da proteína Spike, a espícula do vírus responsável por infectar as células, semelhante à ômicron e o “corpo” do vírus com estrutura da delta. Até 25 de março, apenas 49 casos haviam sido notificados entre os três países, de acordo com a plataforma Gisaid, que notifica as variantes do SARS-CoV-2 que circulam pelo mundo.