Com pressão evolutiva e novas variantes da ômicron, pandemia continua crescendo em ritmo lento, mas casos são leves e moderados graças à vacinação

Para o presidente do Butantan, Dimas Covas, o SARS-CoV-2 avança e sofre novas mutações à medida que a pandemia continua


Publicado em: 01/07/2022

Ainda que o número de infecções por Covid-19 continue aumentando e pressões evolutivas levem ao surgimento de novas variantes do SARS-CoV-2, não devemos ter um aumento expressivo de óbitos porque a vacinação completa vem impedindo o agravamento da doença para internações e mortes. Essa é a opinião do presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, para quem os imunizantes atualmente em uso no Brasil têm oferecido proteção inclusive contra a variante ômicron do SARS-CoV-2, cepa predominante no mundo e que tem dado origem a diferentes sublinhagens.

“A pandemia está crescendo. Em um ritmo lento, mas está. Isso não significa que vamos ter aumento de óbitos. O que estamos observando é que, mesmo que aumentem as infecções, em função da vacinação os casos são leves ou moderados”, explica o médico hematologista, que também é professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. “Mas continuamos a ter óbitos e internações, principalmente nas pessoas que não completaram o esquema vacinal com terceira e quarta dose. Seria ilusório achar que a pandemia acabou.”

De acordo com o Painel Coronavírus do Ministério da Saúde, que utilizada dados do DataSUS, na 25ª semana epidemiológica de 2022 (de 19 a 25/6) foram registrados 368.457 novos casos de Covid-19 e 1.359 mortes. Já na 28ª semana epidemiológica de 2021 (11 a 17/7) haviam sido contabilizados 273.445 novos casos e 8.373 mortes. Isso indica que, em julho de 2021, quando apenas 30 milhões de brasileiros haviam completado o esquema primário de vacinação, a proporção era de 1 morte a cada 271 casos de Covid-19; atualmente, com 167 milhões de pessoas com as duas doses ou dose única, a proporção é de 1 morte a cada 28 casos.

 

Pressão evolutiva e escape vacinal

A evolução de um vírus é aleatória: não há como prever de que forma ele vai mutar. A ciência sabe, no entanto, que alguns elementos favorecem essa evolução. Essas pressões evolucionárias, às quais todos os seres vivos e vírus estão submetidos, dependem muito do ambiente em que o organismo está. “Essa evolução de variantes era desconhecida, embora esperada, e o SARS-CoV-2 evoluiu”, resume o presidente do Butantan.

O que não se previa, porém, era que houvesse uma evolução tão significativa no transcurso de uma pandemia – ainda que algo semelhante tenha acontecido na pandemia de gripe espanhola de 1918. Na época, o vírus causador da doença, influenza A H1N1, mutou e deu origem a diferentes variantes no curso da epidemia.

“Na pandemia de Covid-19, tivemos a introdução das vacinas. As vacinas que foram usadas, principalmente nos países desenvolvidos, agiam contra a proteína S [Spike], um pedaço específico do vírus. Isso é pressão evolutiva: seleciona naturalmente os vírus que acumulam mutações nessa proteína”, explica Dimas. Isso propiciou, no início, uma evolução em busca do escape vacinal – ainda que, na prática, a vacinação em larga escala tenha se revelado capaz de conter o avanço no número de mortes por Covid-19. “Esse é o panorama geral: tem as pressões seletivas e o vírus vai sendo selecionado à medida que a própria pandemia avança.”

Em um cenário de mutação do SARS-CoV-2, a CoronaVac, vacina de vírus inativado do Butantan e da farmacêutica chinesa Sinovac, está mais preparada para oferecer proteção, já que, em sua composição, contém o vírus inteiro. As vacinas que focam na proteína Spike são monoantigênicas, enquanto vacinas como a CoronaVac são poliantigênicas. “Elas resistem mais ao aparecimento de variantes, à seleção de variantes.”

 

Variantes, subllinhagens e vigilância genômica

Quanto mais um vírus circula em uma comunidade, mais rápida é a infecção por esse vírus e maior a possibilidade de ocorrerem mutações e surgirem novas variantes, que são aleatórias. Se, por outro lado, uma variante se dissemina com uma velocidade menor, ela leva mais tempo para atingir toda a população e demora mais para sofrer novas mutações. Foi nesse contexto que, em 2020 e início de 2021, muitas pessoas que ainda não tinham a imunidade estabelecida pela vacina foram infectadas pelas cepas delta e gama.

E então veio a ômicron, uma variante muito diferente de todas as que a antecederam e que causou a quarta e a quinta ondas de Covid-19 no Brasil e no mundo. Ela rapidamente se propagou por todo o mundo, tornando-se dominante e dando origem a sublinhagens, variantes muito semelhantes às linhagens das quais provêm. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a ômicron e suas sublinhagens são a única variante de preocupação (VOC, na sigla em inglês) do SARS-CoV-2 atualmente em circulação.

“Estamos vendo evolução dentro da ômicron. Começou com a BA.1, hoje na Europa já foi tudo BA.2 e agora rapidamente passando para BA.4 e BA.5, variantes de disseminação muito rápida. No Brasil a BA.1 atingiu mais de 70% dos casos e a BA.2 subiu com velocidade. Agora a BA.4 e BA.5 também crescem rapidamente. Isso explica a tendência do número de casos e de internações nas últimas semanas”, explica Dimas. Segundo a Rede Genômica Fiocruz, coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz, o processo de substituição da linhagem BA.1 pela BA.2 já está consolidado, e a BA.2 atualmente responde pela maioria das amostras analisadas pela instituição. 

Números da Rede de Alerta das Variantes do SARS-CoV-2, coordenada pelo Instituto Butantan, mostram que desde o início de fevereiro a variante ômicron é a única identificada em todas as amostras analisadas do estado de São Paulo. Na 23ª semana epidemiológica (5 a 11/6), a Rede registrou um aumento de 22,05% na participação da variante BA.2 e suas sublinhagens em relação à semana anterior. Além disso, a tendência da ômicron de dar origem a sublinhagens vem sendo detectada há tempos pela Rede de Alerta. Entre maio e junho, algumas das sublinhagens registradas no estado de São Paulo foram BA.2.5, BA.2.9.2, XAG (primeira recombinante brasileira da ômicron, recombinação das linhagens BA.1 e BA.2), BA.2.7, BA.2.11, BA.2.13, BA.2.31, BA.2.36, BA.2.37, BA.5.1 e XM (recombinante entre BA.1.1 e BA.2). Em junho, a BA.4 e a BA.5 já representam mais de 15% das amostras sequenciadas.

Quando uma nova sublinhagem é detectada, os cientistas observam seus impactos em termos de gravidade da doença. Se o efeito for pequeno, a tendência é que a variante se dissemine e depois diminua sua participação. “Nós aprendemos a cada dia, a cada semana. A vigilância genômica é importante e o Butantan tem feito isso há algum tempo exatamente no sentido de permitir a identificação de variantes novas e a porcentagem delas na população”, conta Dimas.