Jovem Cientista | Da Colômbia ao Brasil, Juan estuda sua maior paixão no Butantan: as serpentes

Aluno investiga cobras que se alimentam de outras cobras para identificar possíveis inibidores de veneno e novas toxinas


Publicado em: 16/05/2022

Um animal elegante, místico, que tem uma espécie de aura: é assim que Juan David Bayona Serrano, doutorando do Instituto Butantan, descreve as serpentes. Nascido na cidade de Bucaramanga, capital da província de Santander, na Colômbia, o biólogo de 28 anos sempre foi fascinado pela natureza e cresceu frequentando a floricultura de seu pai e seu avô. Durante o curso de Biologia na Universidade Industrial de Santander (UIS), Juan logo se encantou pelo mundo das serpentes e pela biologia molecular, o que o levou para as bancadas de laboratório para trabalhar com as toxinas do veneno das cobras.

Na época, não havia nenhuma linha de pesquisa em toxinologia na UIS e Juan teve a iniciativa de criar o primeiro grupo de estudos na área. “Hoje, há vários alunos de graduação fazendo Trabalhos de Conclusão de Curso sobre venenos de serpentes”, conta. Decidido a seguir para uma pós-graduação, ele entrou em contato com diversos cientistas dos Estados Unidos que estudavam serpentes, e um deles acabou apresentando-o para o seu atual orientador Inácio Junqueira de Azevedo, diretor do Laboratório de Toxinologia Aplicada (LETA) do Butantan.

Em 5 de dezembro de 2017, Juan chegou ao Brasil para ingressar no doutorado direto no Butantan, com um projeto que analisa as proteínas de dois grupos  de serpentes, que contêm espécies com uma dieta bem diferente: se alimentam de outras cobras. São elas a Erythrolamprus aesculapii (falsa coral), da tribo Xenodontini, e a Boiruna sertaneja (muçurana), da tribo Pseudoboini, muito conhecida por se alimentar de jararacas. “São serpentes pouco exploradas pelos cientistas porque não são peçonhentas, já que seus venenos não têm efeitos letais em humanos. Nos últimos anos, no entanto, elas têm ganhado mais relevância”, afirma o pesquisador.

Vinculado ao Projeto Temático “Escalas da Biodiversidade”, da FAPESP, o objetivo do trabalho é identificar quais são os possíveis mecanismos biológicos que conferem a essas espécies a capacidade de se alimentar de outras serpentes, sem serem prejudicadas por sua peçonha. Ao analisar os componentes do veneno e do sangue dessas cobras, Juan descobriu um novo grupo de proteínas proteolíticas na falsa coral. Já na muçurana, foram encontrados níveis elevados de inibidores de toxinas no fígado e no plasma do sangue, além de algumas toxinas pouco comuns em outras serpentes.

“Nós identificamos diversos inibidores de toxinas, mas ainda não testamos diretamente para saber se essas proteínas de fato inibem o veneno das outras serpentes – esse seria um dos próximos passos para o meu pós-doutorado. No entanto, outros grupos de pesquisa já mostraram que o plasma da muçurana interage com o veneno da jararaca”, explica Juan.

A descoberta de novos inibidores de veneno pode abrir caminho para ampliar os tratamentos contra o envenenamento, o que seria importante especialmente no caso da jararaca, responsável por 70% dos acidentes com cobra no Brasil. Em 2020, foram registrados 31.395 acidentes no país, segundo o Ministério da Saúde. Os soros antiofídicos, produzidos pelo Instituto Butantan, são distribuídos por diferentes hospitais brasileiros da rede pública para tratar os pacientes. Vale ressaltar que, ao ser picado por uma cobra, é importante seguir uma série de orientações e evitar “tratamentos caseiros” para não piorar o quadro (Veja aqui o que fazer).

 

Primeiro contato com uma serpente

Quando Juan tinha 16 anos, estava fazendo uma trilha e acabou se deparando com uma cobra. “Eu vi e não fiquei com medo, fiquei fascinado. Eu acho a serpente um animal tão elegante, místico, parece que tem uma aura. Depois, na faculdade, nós fomos para campo e eu segurei uma serpente pela primeira vez. É a melhor sensação do mundo. Eu posso facilmente passar umas três horas tirando foto do animal.”

A sua família, por outro lado, não é muito fã de cobras. Uma vez, ao chegar de uma viagem de campo em um domingo, ele teve que levar as serpentes coletadas para casa já que o laboratório de coleções da faculdade estava fechado “Quando minha avó acordou e viu os animais, ela ficou muito assustada. Quase fui expulso de casa. Até hoje ela se assusta quando mando fotos para ela.”

 

“O Brasil virou a minha casa”

Juan veio para São Paulo sozinho, sem falar português, e enfrentou uma série de desafios. Foi difícil ficar longe da família, dos amigos e da cultura, ainda mais durante a pandemia. Mas a recepção positiva tornou a fase de adaptação mais fácil. Hoje, o Brasil virou sua casa, e ele se considera um pouquinho paulista também. Na última vez que voltou de viagem, por exemplo, pegou a Avenida Vital Brasil e pensou: ‘nossa, estou em casa já’.

Os quatro anos no Butantan lhe proporcionaram momentos inesquecíveis: viajou para a Argentina e para os Estados Unidos em eventos científicos, conheceu o Pantanal, onde viu uma onça pela primeira vez, e realizou sonhos, como publicar o seu primeiro artigo científico. “Também escrevi um capítulo de um livro com o meu orientador. Era um livro que eu usava para estudar na Colômbia, e eu pensava: em algum momento da minha vida, eu tenho que contribuir para alguma edição desse livro, nem que seja uma única frase. Foi muito emocionante realizar esse sonho”, diz Juan.

O estudante revela que pretende ficar mais alguns anos em São Paulo e ingressar no pós-doutorado, se possível no Butantan. No entanto, manifesta o desejo de um dia retornar para a sua cidade natal e continuar suas atividades na universidade onde se formou. Seu sonho é voltar para a Colômbia e criar uma linha de pesquisa de toxinas na UIS.

 

Ciência como ferramenta de mudança

Para Juan, ciência é conversar, compartilhar, duvidar, e acreditar que você pode estar certo, mas também pode estar errado. “Ciência é mudar, é estar aberto para melhorar sempre. Na minha visão, ciência é uma arma que luta contra a maior ameaça que temos hoje, que é a ignorância e a falta de informação. E não só a ciência que nós cientistas fazemos, mas também o pensamento científico. Se o pensamento científico estivesse mais presente nas pessoas, com certeza teríamos menos coisas ruins no mundo. Porque teríamos menos fanatismo e menos mentes fechadas.”