Em meio às dificuldades da pandemia, Butantan mantém produção científica em crescimento

Em 2021, o instituto publicou 345 artigos e colaborou com autores de 75 países, além de ter contribuído contra a Covid-19


Publicado em: 23/05/2022

Ao longo de dois anos desafiadores, marcados pela vacinação contra a Covid-19 – que no Brasil foi iniciada pela CoronaVac – e pela luta contra variantes do SARS-CoV-2 e novas ondas da doença, o Instituto Butantan conseguiu manter um nível elevado de produção científica. Somente em 2021 foram 345 artigos publicados em periódicos – número que vem crescendo nos últimos quatro anos – focados, principalmente, em temas como vacinas, soros e venenos.

Cerca de 50% dos trabalhos do instituto foram citados ao menos uma vez no ano passado, totalizando 483 citações. As áreas de pesquisa mais citadas foram Biologia Celular (183), Toxicologia (58), Imunologia (34), Bioquímica e Biologia Molecular (29), Doenças Infecciosas (29), Ciência e Tecnologia de Alimentos (29) e Medicina e Pesquisa Experimental (27).

Entre 2018 e 2022, as revistas onde o instituto mais publicou incluem nomes como Toxins (54), Zootaxa (50), Toxicon (47), Scientific Reports (38), Frontiers in Immunology (28) e PloS One (21). No último ano, os cientistas publicaram em revistas com alto fator de impacto, como Autophagy, Molecular Biology and Evolution, Nature Communications, Nucleic Acids Research e Alzheimers & Dementia.

 

Internacionalização

O Butantan têm se dedicado cada vez mais à sua internacionalização, estabelecendo importantes parcerias com instituições como a farmacêutica chinesa Sinovac, para o desenvolvimento da CoronaVac, vacina contra a Covid-19, e com a farmacêutica multinacional Merck, para colaboração e licenciamento de tecnologia da vacina da dengue. Recentemente, o Butantan também exportou vacinas da influenza para países da América Latina por meio de edital de licitação da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS).

O mesmo esforço se reflete na publicação de artigos: em 2021, cientistas do Butantan colaboraram com autores de 75 países, entre eles Estados Unidos, Canadá, México, Chile, Colômbia, Inglaterra, Alemanha, França, Espanha, Holanda, Itália, Finlândia, Suécia, Dinamarca, China e Austrália.

Dados sobre a produção científica podem ser acessados no Sapientia, Repositório do Instituto Butantan, que começou a ser formado em 2018 e deve reunir todas as publicações dos 120 anos do instituto. Hoje, o repositório possui 1.690 publicações, entre artigos, trabalhos acadêmicos, livros e patentes. A gestão e a curadoria são realizadas pela equipe da Biblioteca.

 

Publicações de alto impacto

O fator de impacto é um método usado para avaliar as revistas científicas com base na quantidade de citações que os seus artigos recebem. O cálculo do fator de impacto consiste na soma das citações recebidas no último ano, dividida pela quantidade de artigos publicados na revista nos dois anos antecedentes. Por exemplo: se foram publicados 100 artigos nos últimos dois anos e recebidas 1.000 citações no ano do cálculo, o fator de impacto será 10.

Veja os 10 artigos publicados pelos cientistas do Butantan nas revistas de maior impacto em 2021:

 

1. Dementia is an age‐independent risk factor for severity and death in COVID‐19 inpatients

Publicado em: Alzheimers & Dementia

Fator de impacto: 21,566

A partir de dados coletados do UK Biobank, banco de dados do Reino Unido, os pesquisadores investigaram aproximadamente 12 mil indivíduos maiores de 65 anos que foram testados para Covid-19 e avaliaram os fatores de risco envolvidos no diagnóstico positivo, hospitalização e morte. Os resultados apontaram que a demência e o Alzheimer são fatores de risco independentes da idade para gravidade da doença e morte por Covid-19.

Autores do Butantan envolvidos: Ana Carolina Tahira e Sergio Verjovski-Almeida

 

2. The ribosome assembly factor Nop53 has a structural role in the formation of nuclear pre-60S intermediates, affecting late maturation events

Publicado em: Nucleic Acids Research

Fator de impacto: 16,971

Os cientistas analisaram de forma abrangente o impacto da proteína Nop53 na biogênese dos ribossomos e trouxeram evidências bioquímicas de seu papel na montagem dessas estruturas celulares, que são responsáveis pela síntese das proteínas. Além disso, revelaram que a depleção de Nop53 causa o comprometimento de eventos de maturação tardia, como o recrutamento de Yvh1. Assim, foi demonstrado o papel estrutural de Nop53 na formação das partículas intermediárias de pré-60S nuclear.

Autores do Butantan envolvidos: Francisca Nathália de Luna Vitorino e Julia Pinheiro Chagas da Cunha

 

3. Simultaneous expression of UV and violet SWS1 opsins expands the visual palette in a group of freshwater snakes

Publicado em: Molecular Biology And Evolution

Fator de impacto: 16,240

Com ancestrais de habitats terrestres, as cobras do gênero Helicops, popularmente chamadas de cobra-d’água, como a surucucurana e a jararaca-d’água, são altamente visuais e invadiram com sucesso habitats de água doce. Nesse grupo, os pesquisadores relataram o primeiro caso de múltiplos pigmentos visuais SWS1 em um vertebrado, expressos simultaneamente em diferentes fotorreceptores da retina, conferindo sensibilidade UV e violeta às serpentes Helicops e ampliando a paleta de cores que elas enxergam. Em geral, as cobras só enxergam as tonalidades azul e verde.

Autores do Butantan envolvidos: Pollyanna Fernandes Campos

 

 

4. Guidelines for the use and interpretation of assays for monitoring autophagy (4th edition)

Publicado em: Autophagy

Fator de impacto: 16,016

Os cientistas publicaram a 4ª edição de diretrizes para o uso e interpretação de ensaios para monitoramento da autofagia, incluindo um glossário sobre as moléculas e os mecanismos associados a esse processo. A autofagia é um processo de regeneração natural em que as células degradam e reciclam os seus próprios componentes, eliminando proteínas e organelas danificadas. Estudos têm avaliado os benefícios da autofagia para o tratamento de doenças como Parkinson e Alzheimer.

Autores do Butantan envolvidos: Luciana Rodrigues Gomes e Vanessa Olzon Zambelli

 

5. A Newcastle disease virus expressing a stabilized spike protein of SARS-CoV-2 induces protective immune responses

Publicado em: Nature Communications

Fator de impacto: 14,919

Conduzido pela Icahn School of Medicine de Mount Sinai, o trabalho descreve os resultados positivos dos testes pré-clínicos da ButanVac, vacina contra a Covid-19 produzida a partir da inoculação do vírus da doença de Newcastle modificado, contendo a proteína Spike do SARS-CoV-2 estabilizada, em ovos embrionados de galinhas. Hoje, a ButanVac está sendo testada clinicamente no Brasil, Vietnã e Tailândia, e têm se mostrado segura e eficaz.

Autores do Butantan envolvidos: Ricardo Oliveira

 

6. Rhesus macaques self-curing from a schistosome infection can display complete immunity to challenge

Publicado em: Nature Communications

Fator de impacto: 14,919

O estudo mostra que macacos rhesus (Macaca mulata) infectados pelo Schistosoma mansoni, parasita que causa a esquistossomose, apresentam alta resposta imune e se curam após 12 a 17 semanas. Após serem submetidos a uma segunda infecção, os macacos se recuperaram ainda mais rápido. Esse conhecimento pode ser utilizado para o desenvolvimento de uma futura vacina contra a esquistossomose, que atinge 200 milhões de pessoas no mundo. Existe apenas um fármaco para tratar a doença, usado há mais de 40 anos, o que favorece o surgimento de linhagens resistentes do parasita.

Autores do Butantan envolvidos: Murilo Sena Amaral, Adriana da Silva Andrade Pereira, Ana Carolina Tahira, Patricia Aoki Miyasato, Eliana Nakano, Vânia Gomes de Moura Mattaraia e Sergio Verjovski-Almeida

  

7. ToxCodAn: a new toxin annotator and guide to venom gland transcriptomics

Publicado em: Briefings in Bioinformatics

Fator de impacto: 11,622

O avanço do sequenciamento de nova geração aplicado à transcriptômica facilitou o estudo do veneno e a identificação de toxinas. No entanto, a anotação de toxinas no transcriptoma é uma tarefa difícil e demorada, pois o software atualmente utilizado apresenta uma série de falhas. Os pesquisadores desenvolveram um programa em Python, o ToxCodAn, para realizar anotações mais precisas de transcriptomas de glândulas de veneno de cobra. O novo programa teve um desempenho melhor comparado a outros softwares.

Autores do Butantan envolvidos: Pedro Gabriel Nachtigall e Inácio de Loiola Meirelles Junqueira-de-Azevedo

 

8. Tracking the recruitment and evolution of snake toxins using the evolutionary context provided by the Bothrops jararaca genome

Publicado em: Proceedings Of The National Academy Of Sciences Of The United States Of America (PNAS)

Fator de impacto: 11,205

Os cientistas avaliaram a evolução das toxinas de serpentes usando o contexto evolutivo do genoma da Bothrops jararaca. Os resultados indicaram que a duplicação de genes na maioria das famílias de toxinas clinicamente relevantes ocorreu depois, e não antes, do recrutamento inicial de genes de não toxinas, contribuindo para a otimização dos venenos das cobras.

Autores do Butantan envolvidos: Diego Dantas Almeida, Vincent Louis Viala, Pedro Gabriel Nachtigall, Solange Maria de Toledo Serrano, Ana Maria Moura-da-Silva,  Paulo Lee oHoH Ho, Milton Yutaka Nishiyama Junior e Inácio de Loiola Meirelles Junqueira-de-Azevedo

 

9. Field microenvironments regulate crop diel transcript and metabolite rhythms

Publicado em: New Phytologist

Fator de impacto: 10,152

A maioria das pesquisas em cronobiologia vegetal (ramo que estuda a organização temporal dos seres vivos) ocorre em laboratório e geralmente não consegue imitar as condições naturais. Os pesquisadores analisaram plantações de cana-de-açúcar, cultivos de alta densidade que geram microambientes com regimes específicos de luz e temperatura, resultantes de sombreamento mútuo. A conclusão foi que plantas em um mesmo campo podem apresentar diferentes fases decorrentes de microambientes de campo, impactando em importantes características agronômicas, como época de floração, peso e número de colmos.

Autores do Butantan envolvidos: Milton Yutaka Nishiyama Junior

 

10.   Autophagy buffers Ras-induced genotoxic stress enabling malignant transformation in keratinocytes primed by human papillomavirus

Publicado em: Cell Death & Disease

Fator de impacto: 8,469

Os cientistas descobriram que a autofagia, processo de regeneração das células, cria uma estreita janela de oportunidade para o surgimento de células malignas durante a infecção pelo papilomavírus humano (HPV). Isso porque fortes sinais mitogênicos transformadores são ativados pela ação do gene Hras (G12V) nas células infectadas, gerando forte replicação e estresse oxidativo. Esse estresse é combatido pela indução da autofagia, que controla o surgimento das espécies reativas de oxigênio. Os resultados do estudo apontam uma alternativa para combater o surgimento de células tumorais, pela indução de níveis ainda mais altos de sinais mitogênicos enquanto a autofagia é bloqueada.

Autores do Butantan envolvidos: Eduardo Cararo Lopes e Hugo Aguirre Armelin